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Chegando a Adis Abeba, um sorriso de dar câimbra no rosto; o mesmo da minha primeira grande viagem. Há 15 anos, quando desci no aeroporto de Frankfurt para viver um ano na Alemanha, via as pessoas passando por mim falando aquele idioma ainda indecifrável e ria muito sozinha. Um desesperozinho curioso, talvez… A exata mesma reação vem se repetindo a cada novo desembarque. Aí me dei conta de que esse sorriso arteiro é o mais lindo vício que tenho na vida.

Na saída do avião, numa bagunça danada, um cara da Ethiopian pega meus documentos e fica segurando por um tempão embaixo do braço. “Eita”, pensei. Aí enquanto todo mundo enfrenta filas intermináveis de visto, alfândega, inspeção etc, pulo tudo isso porque o cara me adotou e cruzava todos balcões pra adiantar os procedimentos. Ele mesmo ia carimbando as paradas. A única coisa que me dizia enquanto corria de um lado pro outro era: “follow me”. Followzei.
Eu decidi comprar uma passagem com escala longa na Etiópia pra eu ter a oportunidade de olhar Adis Abeba. Aí reservei hotel, me informei sobre as taxas do visto na chegada etc. Em Guarulhos, fui informada que teria tudo isso e mais todas as refeições e traslados na faixa. Ainda deu tempo em cima do lance de cancelar de graça a reserva no booking.com.
Chegando aqui, pensei, deve ser um hotel simplão. Whaaat?! Hotel top, novinho, com recepcionista americano super atencioso que manja de todos os paranauês daqui. “Ok, deu de flow por hoje”, pensei. Abro o chuveiro e não sai água quente. Problema técnico. Me mudam de quarto: suíte presidencial. Gracias, vida. Boa noite.

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De manhã, desço para o café e sou surpreendida pela querida da recepção, a Beki, com: “você dormiu muito!”, me preocupo, olho o relógio. São 8:30. Sorrio. Tá tudo bem. Peço no hotel um táxi para dar um rolé na cidade. Chega o Abreham, o motorista gato da foto. Fiz um grande bróder por aqui (tá comigo agora o colar que o protegia até então).
Entro no carro que certamente é mais velho do que eu. “So now, church or coffee?”. Quem me conhece não tem a menor dúvida do que respondi com firmeza antes mesmo de ele terminar a pergunta.
Ligação direta no carro (chave pra quê?) e seguimos pra um café sensacional daqui. Tudo torrado, moído e coado no próprio salão. Imagina o cheiro maravilhoso do lugar. Café e bom papo, taí o retrato da felicidade. Outra coisa importante: gostar de futebol facilita minha vida em qualquer lugar do mundo. Pro Abreham, o Gaúcho é o melhor jogador que já existiu.
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Abreham e eu na sede da União Africana

Curiosidades: aqui a temperatura oscila muito, tipo no deserto: friaca de manhã e à noite e durante o dia um calorão. A Etiópia e a Libéria são os únicos países africanos que não sofreram colonização europeia. A capital Adis Abeba, com mais de 3 milhões de habitantes, tem aquele abismo social que a gente sabe bem como é. Aqui fica a sede da União Afriacana, o prédio imponente da foto. Liberdade não é o forte Etiópia. Meu novo amigo me pediu pra ser cautelosa com o que escrevo pra ele não ser punido de alguma forma. O facebook foi proibido no país no ano passado. Claro que descobri isso logo que cheguei, tentando sem sucesso atualizar a rede. Mas como ninguém mais vive sem esse tipo de coisa, tem jeitinho clandestino de acessar.

Vale a pena parar aqui mesmo? Se você, como eu, é também viciado naquele sorriso de dar câimbra, sim. Com certeza.
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