Parti da Etiópia com vontade de mais daquele lugar. O destino, porém, era outro. Destino. Não havia estranhamente ansiedade pela Índia. Desde o Brasil, a sensação era de que, de alguma forma, estava indo para casa. Quando no mapa do avião apareceu “Delhi”, tive sensorialmente a confirmação. Chorava e ria, ria e chorava.

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O flow seguiu comigo o tempo todo: três poltronas só pra mim na primeira fileira do avião, entrada sem filas na Índia, mala chegou direitinho, motorista do hotel me esperando com plaquinha, quarto sensacionalmente lindo. Sem limites no deslumbre, não conseguia dormir. Não queria dormir. Vontade de sentir tudo. Com a intensidade e a paixão que me definem.
Acordo com cheiro de café e barulho lá fora. Olhar a rua da janela já é um espetáculo à parte. Sorria para o belo caos. Era toda gratidão.

Será que melhora?

Desde o começo pensei numa viagem solo, mas sinceramente não sentia que estaria sozinha aqui. Muita gente me apareceu com a intenção de vir, mas a vida me presenteou com uma parceira para essa primeira parte da viagem há apenas alguns dias.

fullsizerender-5Andrea me incomodava. Eu incomodava a Andrea. Por mais que fugíssemos uma da outra, mesmo sem um porquê, os encontros eram absurdamente repetidos. Saía faísca. Um dia, numa cachoeira, pedra e água, nos encaramos olho a olho demoradamente. Silenciosamente, eu apliquei ho’oponopono nela. Silenciosamente, ela aplicou ho’oponopono em mim, uma técnica de cura havaiana baseada em quatro afirmações: “sinto muito, me perdoe, eu te amo e sou grata”. Só descobrimos depois a “coincidência”. Começamos magicamente a ver uma a outra como um espelho. Que privilégio o meu ter um reflexo foda assim.
Nos encontramos no almoço. Haja Índia pra tanta conversa. Andamos corajosamente pelas ruas, ignoramos olhares invasivos, rimos, rimos muito. Comemos, bebemos, rimos muito. E quando chegamos ao hotel para fechar o dia, não quis subir. Ela me acompanhou. Havia música num beco. Que vontade me deu de estar lá, mas estava escuro e só havia homens — é a Índia… Mas meus deuses! quanta vontade de estar lá… Fomos nos aproximando timidamente mais e mais. Vimos mulheres e crianças ao fundo. E sei lá como fomos puxadas pra dentro. Pro que aconteceu, não há descrição. “Sory”. Só digo que havia música, lindos trajes, linda gente, dança, comida deliciosa de comer com as mãos, abraços e risos, sabendo cada mantra de cór. E a sensação? Não sei. Só sou.

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O dia seguinte foi para agradecer minha Lakshmi, deusa da beleza, da prosperidade e do poder feminino. Ela que está comigo em todos os momentos. Ela que há anos é fundo de tela do meu celular e do meu computador. Ela que me trouxe até a aqui. Caminhamos quilômetros por Deli, seus templos, seus mercados e encantos e encerramos o dia num rooftop sensacional no meio do caos.

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Depois de quatro dias em Deli, partimos de manhã rumo aos Himalaias. Daramsala me abriu instantaneamente o peito. Na saída do avião, meu corpo se acalmou e o ar passou a fluir mais facilmente. Do aeroporto para McleodGanj, a vila onde vive Dalai Lama, estrada estreitíssima, sinuosa e íngrime. img_5290img_5292-1

As montanhas nevadas à frente anunciavam a beleza estarrecedora que estava por vir. Tão lindo quanto frio. Um frio tão intenso que é notícia diária na Índia. Um frio tão intenso que adiou a vinda de Sua Santidade e antecipou o retorno das duas pessoas mais friorentas que conheço. Os hotéis daqui não estão preparados para o calor que eu e a Andrea precisamos para viver.

Seguimos então para casa, Rishikesh, com os corações serenos. Lá serão intensos três meses. Vem comigo?

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