fullsizerender-7O dia começou com uma proposta interessante, subir os Himalaias de moto, passando por três lugares sagrados. Mas, como vocês bem estão acompanhando, aqui as coisas surrealmente só melhoram. Aluguei a moto com o Mohan, um indiano natural de Rishikesh que é casado com a linda Rebeca. Eles passam metade do ano aqui a outra em Curitiba. Conhecem as melhores coisas, lugares e pessoas da Índia.

Coloquei a Andrea na garupa e seguimos pelo trânsito insano da cidade até a estrada das montanhas. Primeira parada: pés dos Himalaias, beira do Ganges, uma caverna onde um homem santo se iluminou. Entrar lá é entrar em meditação instantemente. Comecei a ouvir todo o meu corpo, ouvi o som do silêncio. Saí e me sentei perto do rio. Entendo o homem santo que preferiu a caverna, mas meu lugar é sempre sob o sol, perto da água e do ar. Que beleza de rio. Estou completamente apaixonada pela Ganga.

Seguimos para cima. Estradinha cheia de curvas, macacos, vacas, sustos, gargalhadas, e vista ignorantemente fodástica. Chegamos ao primeiro Baba do dia. Ele é um sadhu, um homem que abriu mão da matéria para se dedicar à devoção. Ele cuida de um pequenino templo a Shiva, local onde também dorme e se alimenta. É um paraíso cheio de flores, pássaros e um gramado tão bem cuidado e varrido que se confunde com um tapete de luxo. Ao chegar lá, um grupo da comunidade estava no meio de uma cerimônia de três dias, entonando mantras em jejum, sem sair de lá, dormindo num alojamento improvisado. Participamos do Arathi, uma cerimônia linda, feita ao nascer do sol, ao meio dia e ao pôr do sol, com flores, fogo, incenso e oferendas (pujas). img_5612Abençoados ali, preparamos nosso almoço na pequena cozinha do Baba, um arroz indiano de lamber os beiços e as mãos. Quando terminamos, uma senhora da montanha de 85 anos, nos levou para uma pequena caverna cheia de morcegos bem embaixo do templo. A velhinha tinha uma flexibilidade absurda para se encafifar naquele lugar. Fomos convidados para dormir no alojamento, mas seguimos Himalaias acima para encontrar no cume de uma montanha, outro Baba.

fullsizerender-5Esse segundo sadhu, amparado pela energia de Durga, mexeu com meu centro. Senti que ele tinha algo pra me dizer. Depois das bençãos (linhas amarradas nos pulsos com voltas de acordo com o feeling do cara, flores colocadas na cabeça e aqueles sinais na testa, geralmente feitos com cúrcuma – que há quem acha que é machucado na testa), pedi para o Mohan traduzir em hindi que eu gostaria que ele escrevesse de volta uma frase. Ah.. esse sadhu fez voto de silêncio e se comunica com a ajuda de um pequeno quadro negro e um giz. Ele segurou minha mão, olhou fixamente nos meus olhos por uns dois minutos, fez sons estranhos e começou a falar sobre a minha vida. Perguntou com o que eu trabalhava, falei que com algo parecido com psicologia (nem minha família entende direito o que eu faço, imagina ele), aí sou surpreendida com a frase no quadro “teacher. you are the best”. Depois ele escreve “boyfriend” no quadro e faz uma cara de interrogação. Eu digo que não, meio que não, não. Não. Ele solta uma gargalhada, continua falando coisas sobre meu pulso fino em contraste com minha força, meus desafios… e no final ele crava que eu certamente voltarei lá para vê-lo. Casada. Gargalho. Ainda tomamos um chá com o Baba antes de iniciarmos a descida congelante ao por do sol. Uau. Uau. Uau. Hipotermia no corpo e deslumbre sem limites por tudo o que coube em um dia. A aventura terminou comigo pilotando a moto à noite na estrada indiana, em mão inglesa, com farol apagado. Banho, sopa, risos, conversa boa com minha parceiraça, chá e boa noite.

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