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O satsang de hoje foi sobre amor e liberdade, tema do penúltimo livro do Prem Baba. Ele foi indagado sobre uma frase dele que é fácil de entender, mas difícil de aplicar: “amar é deixar o outro livre, inclusive para não te amar”. Oh god.
 
Vamos lá que vou tentar passar adiante o que compreendi da mensagem dele e que, há tempos, acredito ser bastante pertinente. Se a vida é uma escola, os relacionamentos são a universidade. Neles é que encontramos maturidade para aprender sobre os mistérios da vida.
 
O problema é que quando nos relacionamos temos a tendência, mesmo que inconsciente, de tentar controlar o outro, de fazê-lo pensar como a gente, de esperar que ele atenda às nossas expectativas… resumindo, temos a ilusão de que é possível fazer algo para que o outro nos ame.
Dependendo dos referenciais que tivemos (na infância, nas experiências passadas etc), podemos adotar diferentes estratégias para isso. Se aprendemos que conseguiremos amor sendo vítimas, ou seja, nos rastejando, nos colocando como dependentes do outro, agindo como se sem o outro não existisse vida…, nos especializamos nessa habilidade. Se aprendemos que o melhor é sermos distantes, indiferentes, controladores… nos tornamos experts nisso e passamos a vida agindo assim. Esses são apenas dois exemplos das inúmeras estratégias de sedução que existem; estratégias para buscar controlar o que o outro sente por nós.
 
A grande maluquice disso tudo é que esse outro na verdade não existe.
WTF, Aline?!?
Calma, explico.
 
1. Existe o outro.
2. Existe a imagem que construímos do outro.
Sem muito autotrabalho, enxergamos e nos relacionamos apenas com o aspecto número 2.
 
Enxergamos o outro a partir da imagem que atribuímos a ele. Essa imagem é uma projeção da nossa mente. Ou seja, a pessoa que idealizamos foi criada por nós mesmos. Essa ilusão é fruto da nossa carência afetiva e, inevitavelmente, gera sofrimento porque com certeza absoluta as nossas expectativas não serão atendidas.
 
A tendência que temos é de nos conectamos com pessoas que representam a parte ferida de nós mesmos. Elas nos mostram o que dentro da gente ainda é preciso ser trabalhado; os padrões que repetimos, os vícios que carregamos etc. Nessa lógica, se eu, por exemplo, tenho a expectativa num relacionamento de proteger alguém, quem será na verdade que estou tentando proteger?
 
Vamos supor que nessa altura você esteja pensando:
Eita, Aline. Esse texto tá complicado… Mas vamos supor que eu tenha entendido alguma coisa, tipo que o outro é uma projeção de um eu ferido que eu estou tentando salvar e tal, aí crio expectativas em cima dessa pessoa, cobro o amor dela, prendo ela no pé da cama, sinto ciúmes, quero que ela aja conforme minhas expectativas… O que é que eu faço com toda essa M???
 
Tenho duas notícias em relação a isso, uma boa e uma ruim. A ruim é que é bastante trabalhoso mesmo romper com padrões destrutivos como esses. A boa é que sim é possível cessar com esse ciclo vicioso. Terapia, coaching, auto-observação certamente podem ajudar.
 
O importante nesse trabalho é enxergar qual parte de você está tão desesperadamente querendo salvar o outro. E se esse outro é uma manifestação de uma projeção sua, que parte é essa em você que foi esquecida e que precisa de uma outra pessoa para se completar? Isso é muito importante.
 
Quando tomamos consciência dessas partes negadas de nós, temos a oportunidade de nos reintegrarmos, de sermos um novamente; indivisíveis. Ao sustentarmos a presença nisso, não temos mais a necessidade de escravizar o outro, porque já nos sentimos completos.
 
Assim, tomamos consciência de que um relacionamento é o exato reflexo da natureza: podemos plantar uma semente, cuidar, amar, regar, mas não podemos forçar o florescimento. E, caso a semente resolva não florescer, não há nada que possamos fazer a respeito, apenas aceitar.
 
A grande beleza disso tudo é que quando aceitamos o outro como um ser livre, na verdade, nós é que nos tornamos livres.
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